A falta que a dublagem vem fazendo durante a pandemia

Há alguns grupos que considerem o ato de assistir conteúdos dublados, uma atitude falha e desnecessária, o que muitas vezes gera debates calorosos nas rodas de cinéfilos. No entanto, os defensores do bom português conseguem reconhecer que mesmo que a preferência pelo legendado possa vir a ser maior em alguns casos, a dublagem não é descartada.



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Além disso, a dublagem pode fazer toda a diferença em determinadas ocasiões. Já que muitas pessoas não podem se dar ao luxo de escolher, como é o caso dos analfabetismos, que em 2017 no Brasil corresponde a 11,5 milhões de pessoas segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Isso fora os deficientes visuais, idosos, ou crianças em fase de alfabetização, por exemplo.

Mas apreciando ou não das marcantes dublagens, o público já vem percebendo algumas mudanças nas últimas semanas. Com os principais estúdios de dublagem do país de portas fechadas, por causa da pandemia de coronavírus, não resta alternativa às plataformas de streamings e canais de TV além da exibição de novos títulos semente legendados.

Como é o caso da Netflix, que nas últimas semanas, se viu obrigada a disponibilizar algumas séries e filmes apenas em sua linguagem originais, com legenda. Ainda, acompanhadas por um alerta de que não há dublagens disponíveis.

Posicionamento das plataformas

(Foto: Reprodução/ ABC do ABC)


Um exemplo é o longa “Coffee & Kareem, produção original que estreou no canal em abril, e não possui a opção de áudio em português. A película foi a primeira produção da empresa a ser afetada. Mas depois dele, dezenas de novos títulos também sofreram a perda. Séries como “Disque Amiga Para Matar“, cuja segunda temporada estreou no dia 8. A já adorada “Hollywood” que reimagina como seria o mundo, se nos anos 40, atores negros, homossexuais, ou asiáticos tivessem tido uma chance real no mundo das artes. Além do drama alemão “Noite Adentro”, são só alguns exemplos das obras afetadas.

“Muitos estúdios de dublagem estão fechados devido à Covid-19, o que resulta em um atraso na dublagem de alguns de nossos novos títulos. Nossa prioridade é a saúde e a segurança de todos os envolvidos. Esperamos disponibilizar a opção de áudio em português em breve e, enquanto isso, as legendas estarão disponíveis em todos os idiomas, como de costume”, informou o streaming em um comunicado. No menu das obras que estão nestas condições, logo acima da sinopse, aparece uma mensagem dizendo: “Em alguns idiomas, a dublagem atrasou. A prioridade é a saúde dos dubladores”.

Além dos streamings, os canais de TV fechada também correspondem a uma fatia generosa da demanda dos estúdios. Presente tanto no streaming quanto na televisão, a HBO por exemplo terá mudanças na programação. Segundo comunicado enviado à revista Veja, algumas produções originais do canal, serão exibidas apenas legendadas. A Sony também teve de se adaptar ao momento. Durante o mês de abril, o canal optou por colocar a popular série Grey’s Anatomy em um hiato provisório. Os episódios inéditos retornam em maio, somente legendada. Já no AXN, os novos episódios da série NCIS estão suspensos até o dia 19 de maio.

Profissionais Parados

(Foto: Reprodução/ Vila Musical)


Os estúdios dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores praças de dublagem no país, estão paralisados desde março. Mas além da dublagem, as mesmas empresas também são responsáveis por legendas de algumas produções. Atividade que segue sendo feita de maneira remota, e é uma alternativa para que títulos inéditos internacionais não deixem de chegar aos espectadores.

Mas muito além de a falta de áudio em português ser uma questão incômoda, e até mesmo essencial no caso de pessoas com limitação de leitura, o espectador não é o único afetado pela interrupção nas dublagens. Já são milhares de profissionais enfrentando uma fase dramática. Até porque a maioria deles não é registrada e recebe por anéis dublados (um período de 20 segundos de vídeo). E agora parados não recebem nada.

A grande alternativa para esses profissionais seria levar a dublagem para dentro de casa, o que seria uma tarefa tecnicamente possível, mas cheia de empecilhos. A principal preocupação é com a cadeia produtiva, pois além do dublador, participam do processo de gravação um diretor e um técnico e profissionais do pré e pós-produção. Além de envolver a separação do texto, tradução e mixagem.

O legado da dublagem no Brasil

Wendel Bezerra, Dublador. (Foto: Reprodução/ Escola SAGA)


O Brasil é um dos principais mercados de dublagem do mundo, ao lado da França e Itália. Porém, antes de se tornar um dublador, é preciso ter uma formação como ator, além de possuir seu DRT. Afinal de contas, a dublagem nada mais é do atuar em cima de uma atuação já feita. Mas não basta uma simples e genérica dublagem, e sim, uma bem dirigida e encaixada.

Uma boa dublagem não é aquela que simplesmente encaixa perfeitamente no personagem, mas sim aquela que passa despercebida. Assistir a um filme dublado e achar que ele, originalmente, é assim, demonstra uma das verdadeiras essências da dublagem. Outro ponto importante é a adaptação. Quando o estúdio recebe um filme, série, anime ou jogo em seu idioma original, o tradutor prepara o roteiro do dublador a partir de uma tradução literal do texto original.

No entanto, essa tradução literal não consegue transmitir a ideia de uma forma que os brasileiros aceitem bem. E muitas vezes essa função de adaptação é passada para o próprio dublador. Cada país tem sua própria cultura e o cinema procura transferir esta cultura para a tela. Na dublagem não é diferente. Por exemplo: traduzir piadas americanas para o português não faz muito sentido e o público não se sente convidado a fazer parte da trama junto aos personagens.

Por fim, não se trata simplesmente de traduzir um roteiro da sua língua mãe para o português. É a adaptação, é brincar com a língua, é transmitir a cultura do próprio país e as raízes de um povo em cima de uma outra cultura. Não se trata de dar sua voz a um personagem, mas sim de se tornar o personagem.

Por: Jonathan Rosa

Imagem em destaque: (Reprodução/ Portal CMC)

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