Estudo afirma que cesárea aumenta o risco em gestantes com coronavírus

Autoridades sanitárias tratam de reduzir a taxa de cesarianas, em situações normais. Contudo, na pandemia do coronavírus é recomendado de preferência parto natural, exceto em situações de estrita necessidade.



Segundo os resultados de uma pesquisa realizada na Espanha, publicado na revista médica JAMA, afirma que cesarianas estão associadas a um agravamento na saúde de grávidas com Covid-19.

Contudo, assintomáticas ou com sintomas leves, equivalente a cerca de 21,6% tiveram piora de situação clínica, e apenas 4,9% tiveram complicações nos partos naturais.

Logo após a intervenção, 13,5% das gestantes precisaram ser levadas à UTI, frente a nenhuma das que tiveram parto natural. O parto cirúrgico está associado a uma maior percentagem de internação dos recém-nascidos nas UTIs neonatais, 29,7% frente a 19,5%.

“A cesariana, assim como toda cirurgia, produz inflamação, que se soma à produzida pela infecção. Esse estresse fisiológico faz aumentarem as complicações depois da intervenção nas mulheres com covid: Elas têm maior risco de precisar de assistência respiratória, de sofrer deterioração clínica e de darem entrada na UTI”, diz Óscar Martínez Pérez, chefe-adjunto do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Puerta de Hierro, na localidade de Majadahonda (região de Madri) e autor principal do estudo.


Estudo

Estudo comprova o risco de cesárea em mulheres com Covid-19. (Foto: Reprodução/Leilani Rogers Photography)


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Martínez diz que uma cirurgia em doentes com coronavírus aumentam o risco de futuras complicações pulmonares, ou inclusive de morte, segundo o estudo publicado em 28 de maio, na Lance.

Não há alternativa em operar um traumatismo urgente, mas se for possível fazer um parto natural, é melhor para mãe e a criança”, afirma Martínez Pérez.

É preciso evitar a cesariana

O obstetra diz que nas primeiras semanas de crise da pandemia, eram feitas mais cesarianas em grávidas com Covid-19, pelo medo de transmissão vertical; entretanto, também por medo que a mãe sofresse complicações.

No começo não havia pesquisas, ou experiencia científicas com o vírus. Apenas, se contava como referência de dois estudos chineses de quatro e nove partos, e apenas um havia sido de cesárea.

Conquanto, depois de analisar os dados de 78 partos de gestantes com Covid-19 sem sintomas ou com sintomas leves; a conclusão é que: “É preciso tentar como sempre evitar a cesariana. Só o fato de fazê-la já piora o prognóstico destas pacientes”, diz Martínez Pérez.

Apenas o caso das parturientes em estado grave, aquelas com indicação de realizar ou não cesariana, irá depender do estado de saúde da mulher; no que ela pode aguentar, pois o parto consome muito oxigênio.

Grávidas parturientes

As quatro mulheres neste estado, incluídas no estudo precisaram de cesariana e internação na UTI. Das 78 pacientes assintomáticas ou com sintomas leves, 41 deram à luz de forma natural (53%); e 37 por cesariana (47%), sendo 29 por indicação obstétrica e oito por sintomas de covid.

Ou seja, uma taxa muito acima do teto de 15% recomendado pela OMS e dos 26% da média na Espanha em 2018.

Além disso, das 37 mulheres, cinco (13,5%) tiveram que dar entrada na UTI e 8 sofreram uma deterioração clínica (21,6%). Dos bebês nascidos por cesariana, 11 (29,7%) precisaram ser atendidos numa UTI neonatal.

Das 41 que pariram por via vaginal, duas tiveram agravamento do seu quadro, (4,9%), mas nenhuma foi para a UTI. Oito recém-nascidos (19,5%) precisaram de tratamento intensivo. Para esta pesquisa, explica o autor, tiveram ajustes necessários sobre o estado prévio da mulher, assim, a única diferença entres as pacientes de um grupo para o outro, era o tipo de parto.

“É interessante, dá uma primeira fotografia dos resultados perinatais em partos vaginais e por cesariana”; opina Juan Luis Delgado, presidente da seção de medicina perinatal da Sociedade Espanhola de Ginecologia e Obstetrícia (SEGO), sem participação no estudo.

Esta fotografia, diz Delgado: “Mostra como nessas primeiras semanas de pandemia na Espanha eram adotadas certas condutas nos partos sem comprovação científica. Pois, não existia, o que explica a alta percentagem de cesarianas. Portanto, adverte, não se pode extrapolar a situação atual, em que se passou de praticar a intervenção nas doentes no terceiro trimestre; porque se acreditava que assim se evitariam complicações; a deixar a gestação seguir seu curso se não houver risco para o bem-estar fetal ou materno”.

Um novo estudo mais amplo

Conforme a amostra do artigo publicado na JAMA ainda é pequeno, e faltam descrever fatores importantes; o obstetra Martínez concorda em evitar a cesariana, e não indicar diretamente a mulheres grávidas. O mesmo alerta também, que existe maior risco de episódios trombóticos por conta da Covid-19 se agravar com a cirurgia.

Como explica Delgado: “Tratar a doença, se a mulher estiver em um estado aceitável de saúde; ou seja, com sintomas leves ou moderados, e esperar que se cure, e a gestação evolua. Caso seja necessário interrompê-la. Embora, o ideal é tentar induzir o parto em vez de fazer uma cesariana; exceto se pensar que a mãe ou o feto não suportarão as horas de um parto induzido”.

Os dados foram colhidos em março e começo de abril pelos profissionais do grupo Emergência Obstétrica Espanha. Grupo com mais de cem ginecologistas e parteiras de hospitais que atendem 160.000 partos por ano, ou 30% do total no país, e que lançaram um cadastro de partos de mulheres com covid.

Contudo, a limitação atual do estudo, e o número baixo de casos incluídos, tornam o intervalo confiável e amplo. Martínez Pérez afirma que já está preparando um novo estudo mais abrangente, com quase 500 pacientes, além de outro internacional, com mil.

Por: Nicolly Verly

(Foto destaque: O ideal para gestantes com Covid-19 é o parto natural. Reprodução/AFP)

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