Fenômenos naturais x coronavírus

A natureza encanta, mas a paranoia não dá trégua. Em tempos de coronavírus, nem mesmo fenômenos naturais recorrentes são dissociados do surto epidêmico. Confira algumas das manifestações naturais ultimamente imputadas ao novo vírus.



#FatoOuFake: Bioluminescência volta a acontecer nos EUA e no México devido ao novo coronavírus #MENTIRA

“Ondas bioluminiscentes. Este incrível espetáculo ocorreu na Califórnia. A tranquilidade do mar a ausência de turistas devido à quarentena, permiti que reapareça estas microalgas bioluminiscentes que transformam as ondas neste lindo espetáculo!!!!!”. (sic)

Novo boato envolvendo o coronavírus indica que um fenômeno natural, que deixa a água do mar fosforescente, teria voltado a acontecer em virtude da calmaria provocada pelo recolhimento social. O evento voltou a acontecer em praias americanas e do México no mês passado, e encantou moradores. De acordo com biólogos, o fenômeno conhecido como “maré vermelha” é produzido por algas microscópicas, que deixam o mar vermelho durante o dia; à noite a agitação das águas faz com que as algas irradiem um neon azul-esverdeado, produzindo verdadeiro show de ondas brilhantes. Relatos apontam que no México, as ondas bioluminescentes retornam após 60 anos.


Bioluminescencia

Bioluminescência marinha não está relacionada à Covid-19. (Foto: Reprodução/Shad)


Bioluminescência é capacidade de um organismo produzir luz fria e visível, ele corresponde a uma reação química que transforma energia química em energia luminosa. Sendo mais específico, enzimas conhecidas como luciferases oxidam uma substância denominada luciferina num processo chamado de oxidação biológica. A reação libera energia em forma de luz.

Habilidade

Várias criaturas possuem habilidade para emitir luz, dentre os quais encontramos peixes, crustáceos, fungos, bactérias e insetos, como o vaga-lume. A competência está ligada a diferentes fatores, mas, em geral, se relaciona a necessidades de defesa, predação e comunicação. Grande parte das espécies marinhas bioluminescentes habita as profundezas oceânicas. A fake news em pauta trata de manifestações bioluminescentes na superfície provocadas pelo microscópico fitoplâncton phytoplanktons bioluminescentes.

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O fenômeno é recorrente em praias da América Central e do Norte, mas não tem frequência nem duração definida. Eventos similares são registrados com frequência em lugares como Maldivas, Nova Zelândia e Austrália.

Notícia fake

De acordo com a notícia fake, o fenômeno seria resultado do alívio da pressão imposta pelo homem à natureza. Assim sendo, pela lógica, menos moradores e turistas circulando implica em menos intervenções nocivas, como barulho e poluição. Esse fôlego ao planeta teria feito com que, aos poucos, ele voltasse a funcionar organicamente; um dos resultados seria o reaparecimento de algas bioluminescentes. Embora bem sustentada, a tese é falsa.

A notícia se encaixa no grupo de publicações que tentam mostrar o quanto tem sido benéfico para o planeta, do ponto de vista físico-naturalista, a pausa repentina e obrigatória gerada pela pandemia. Entretanto, especialistas argumentam que os episódios recentes na Califórnia e no México nada tem a ver com a quarentena. No Twitter, a Fidetur Acapulco, instituição ligada ao turismo no México, reafirma que o fenômeno é o resultado de uma reação química.

Ademais, como o fenômeno é ocasional, é impossível atribuir a sua ocorrência ao isolamento social. Assim sendo, a relação entre os shows luminosos no México e na Califórnia e a quarentena não passam de uma grande coincidência.

Barulhos estranhos no céu podem ter relação com a quarentena por coronavírus #VERDADE

Além da bioluminescência, outros acontecimentos incomuns vêm sendo relatados ultimamente e tendo explicação associada ao período de quarentena. Eventos extraordinários, alguns difíceis de acreditar, estão na lista das manifestações atípicas supostamente ligadas ao novo coronavírus. Uma das histórias diz respeito a um suposto barulho advindo do céu e detectado em diferentes lugares do mundo no mês de abril. Segundo os relatos, sons que lembram trombetas e ruídos de obras ou aviões teriam sido ouvidos em vários países, dentre os quais EUA, Eslováquia e Brasil.

O assunto ganhou fama nas redes sociais e já esteve diversas vezes nos Trending Topics do Twitter, com a hashtag #barulhonoceu. Embora fonte de sequências de memes, muitos comentários fazem alusão a teorias conspiratórias e apocalípticas sobre novo vírus.

De acordo com o raciocínio, os ruídos são o resultado da redução da poluição provocada pelo recolhimento social. Por um lado, há menos poluição influenciando a movimentação dos gases, o que originaria os barulhos estranhos. Por outro, o silêncio provocado pela menor circulação de pessoas permite a percepção de ruídos inaudíveis em condições “normais” da maioria das cidades.


céu

Barulho no céu pode ter relação com o novo coronavírus. (Foto: Reprodução/Unsplash)


Além de movimentar a rede, o tal “barulho no céu” tem assustado internautas e aguçado misticismos. São diversas as publicações de supostas gravações do fenômeno e comentários que o relacionam a óvnis ou ao fim do mundo. Embora as especulações sobre as causas sejam muitas, há também quem duvide da veracidade do evento. Para esse grupo de pessoas, os ruídos não passam de um delírio coletivo.

O que diz a ciência

Especialistas também dividem opiniões sobre os barulhos vindos do céu. Alguns cientistas acreditam que os estrondos estão relacionados a variações na pressão atmosférica ou à interação do campo magnético com ventos solares. Sob essa perspectiva, a menor quantidade de poluentes durante a pandemia realmente poderia ter causado interferências na movimentação do ar e, consequentemente, um céu barulhento em abril. Em contraposição, outros estudiosos negam a produção natural de sons pelo planeta. Descartam, ainda, a possibilidade da poluição causar algum impacto significativo sobre a movimentação do ar atmosférico.

Ruídos no céu sem motivo aparente já foram registrados outras vezes e são sempre cercados de mistérios. Acredita-se que os skyquake, como são conhecidos os estrondos enigmáticos, podem ter diferentes causas e algumas explicações científicas são consideradas satisfatórias. Mas o fato é que ninguém tem certeza absoluta sobre o que realmente acontece. Muito menos se a relação indireta com a quarentena procede. De qualquer maneira, essa hipótese é real e, portanto, válida. Em meio tantas notícias esdrúxulas disseminadas sobre o novo vírus, essa, finalmente, não tem os requisitos necessários para ser classificada como fake news.

Por Gláucia Fernandes

(Foto destaque: Coronavírus. Reprodução/Flick)

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