Coronavírus: Vacina na mira das fake news

Os ataques às formas de proteção contra o coronavírus parecem não ter freios. Ora é a máscara, ora o álcool gel ou o isolamento social. Hoje vamos falar de vacina, elemento chave na pandemia e que também é alvo constante de fake news. Confira, portanto, alguns boatos que têm rodado na internet e repercutido negativamente sobre vacinas contra a Covid-19.



#FatoOuFake: Empresa chinesa responsável pela CoronaVac vendia vacinas falsas #MENTIRA

Como era previsto, a produção de vacinas contra a Covid-19 está dando o que falar. Não bastassem os rumores relacionados à eficácia dos imunizantes, a população, atordoada, também tem que lidar com teorias da conspiração envolvendo o produto. A China, para variar, está no cerne de uma série de argumentações mirabolantes que não fazem, senão, transparecer o desejo político de promover determinado discurso.

Um boato circula na internet gerando dúvidas sobre a confiabilidade da CoronaVac, vacina desenvolvida por laboratório chinês em parceria com o Instituto Butantan, e que recentemente iniciou a terceira fase de testes. A notícia ataca a reputação da empresa responsável pela vacina, a Sinovac Biotech, relacionando-a a escândalo sanitário deflagrado na China em 2018. Segundo a informação, a Sinovac teria sido acusada de envolvimento em rede ilegal de fabricação de vacinas. Algumas mensagens dizem o seguinte:

“Empresa chinesa vendia vacinas falsas contra pólio, tétano e difteria, E… AGORA QUEREM VENDER VACINA PRA COVID NO BRASIL” (sic)

“Empresas Chinesas vendiam vacinas falsas contra Polio,Tetano e difteria.Não esqueçam!” (sic)

O texto de outras mensagens, por sua vez, mostra insatisfação com o acordo firmado entre o Governo de São Paulo e a companhia chinesa:

“TÔ FALANDO QUE NÃO CONFIO, PRINCIPALMENTE AGORA EM DOBRADINHA COM O DORIANA… Ching Ling²…………Seringa” (sic)

“ATENÇÃO![Rosto pensativo] Joao Dória leia sobre o que seus parceiros chineses fizeram no verão passado! Voce já tinha ciência desse genocídio? Ai você [Cara de bravo] pretende fazer o mesmo em São Paulo? Empresa chinesa vendia vacinas falsas contra pólio, tétano e difteria” (sic) 


jornal

Fake news só fazem aumentar o pavor em meio a crise sanitária. (Foto: Reprodução/Pixabay)


Notícia fake

Como já advertido, a informação é falsa. Mantendo o padrão de uma variedade de fake news, a notícia se apropria de um fato verídico, distorcendo e adaptando-o a um novo contexto. Assim sendo, parte da mensagem é verdadeira, o que quer dizer que a adulteração de vacinas no país asiático realmente foi constatada. O caso explodiu em 2018 e felizmente até o momento não há relatos de morte ou efeito colateral relacionado aos imunizantes violados. Inclusive, um lote falso contra tétano, difteria e poliomielite teria sido aplicado em bebês com menos de três meses.

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Segundo as notícias da época, um laboratório chamado Changchun Changshenge, e não a Sinovac, como afirma a mensagem fake, teria sofrido sanções por falsificar registros, alterar arbitrariamente protocolos de produção e de armazenamento e por usar produtos vencidos. Além das acusações relacionadas aos imunizantes infantis, no mesmo ano a Changchun Changsheng foi responsabilizada por fraude em vacinas contra a raiva humana, o que exacerbou a ira e revolta de consumidores. A companhia foi, então, multada e teve a licença para produção de vacinas revogada. Ademais, imunizantes da marca foram retirados de circulação tanto na China, como no exterior.


produção de vacina

Vacina é uma das saídas para a crise gerada pela Covid-19. (Foto: Reprodução/Pixabay)


Repercussão

O caso, sem dúvidas, repercutiu mal em todo o mundo, acendendo o alerta de compradores e fortalecendo movimentos antivacina. Atualmente o episódio tem sido desviado de seu contexto original, voltando a ser lembrado como argumento legítimo para desqualificar a CoronaVac. Os efeitos da notícia são diversos: além de difamar a Sinovac Biotech e depreciar o imunizante com base em sua origem, põe em xeque, de maneira equivocada, a capacidade de gerência do Governo de São Paulo durante a pandemia. Além disso, fomenta resistência paranoica e desnecessária àquilo que no momento parece ser uma saída razoável para contornar a crise.

Dessa forma, é importante reafirmar: é falsa a mensagem que alega histórico de falsificação por parte da farmacêutica Sinovac, que está testando vacina contra a Covid-19 no Brasil. Análoga a muitas outras, a notícia não passa de mais um exemplo de desinformação, de burburinho nocivo que, assim como o novo coronavírus, deve ser combatido.

Mais fake news: João Doria assinou contrato com chineses para CoronaVac em agosto de 2019 #MENTIRA

Outro exemplo de deturpação e de má interpretação induzida por teorias conspiratórias envolvendo a China diz respeito à notícia de que João Doria, governador de São Paulo, teria declarado ter assinado contrato com a Sinovac Biotech para a produção da CoronaVac em agosto do ano passado. Em coletiva no dia 11 de junho, Dória revelou que a InvestSP inaugurou escritório voltado a negócios em Xangai em agosto de 2019. O objetivo seria atrair investidores chineses para o Estado.

Com efeito, a alegação deu margem a rumores de que João Dória e os chineses, àquela época, já sabiam da existência do novo coronavírus. É bom lembrar que em agosto de 2019 a Covid-19 sequer havia sido noticiada. Além disso, em nenhum momento o governador declarou ter firmado contrato sobre a Coronavac na oportunidade da inauguração. A declaração de Dória sinaliza apenas o estreitamento das relações comerciais Brasil-China com a abertura do escritório em Xangai, é o que reforça a assessoria de imprensa do Instituto Butantan. Em suma, a desconfiança expressa na notícia é equivocada e sem sentido.

Por:  Gláucia Fernandes

(Foto Destaque: Vacina para Covid-19 começa a ser testada no Brasil. Reprodução/Pixabay)

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