Coronavírus: paraíso das fake news

Como se fosse fácil sobreviver a uma pandemia mortífera, desviar dos ataques oportunistas na rede virou prática comum. Com o intuito de orientar e reduzir os males causados pelas fake news relacionadas ao novo coronavírus, trazemos mais uma vez burburinhos e desmentidos que têm movimentado a rede nas últimas semanas.



#FatoOuFake: Vinho previne a Covid-19 #MENTIRA

Dentre as inúmeras notícias falsas espalhadas sobre o novo coronavírus, uma, sem dúvida, agrada a muita gente. Desta vez, a grande descoberta gira em torno de uma maravilha engarrafada considerada a “bebida dos Deuses” por seus amantes. Mas os efeitos milagrosos do vinho nada têm a ver com a pandemia de 2020 ou com o vírus recém descoberto. Bom, não tinha.

A notícia de que o vinho é eficaz para prevenir a Covid-19 circula desde que a Federação Espanhola de Enologia divulgou um comunicado para tranquilizar compradores de vinho durante o surto da doença na Itália.  Havia o temor de que bebidas e embalagens produzidos na Europa estivessem contaminados.

O documento faz declarações controversas, sugerindo que a bebida tem eficácia contra o novo coronavírus. Desde então o assunto virou polêmica, respaldando publicações que tratavam o vinho como remédio. A comunidade científica, por sua vez, ratifica a fala da Organização Mundial da saúde (OMS) de que nenhuma bebida tem eficácia comprovada contra a nova infecção. Médicos espanhóis também desmentiram a mensagem, como sustenta a Agência FEE e outras fontes espanholas.

Vinho

Vinho não previne o novo coronavírus. (Foto: Reprodução/Unsplash)


Leia mais: Anticorpos de lhamas podem ajudar no combate ao coronavírus

Medida Provisória

No Brasil, o boato ancorou outra mentira. Por aqui circulou a informação de que a nova descoberta levou à edição de uma medida provisória beneficiando produtores de vinho. A intenção, de acordo com a notícia, seria subsidiar a produção para tornar o “remédio” acessível a todos. Um trecho da mensagem diz o seguinte:

“E o Vinho se beneficia com o Coronavírus. A Medida Provisória de nº 937, de 31.3.2020 que será publicada no Diário Oficial da União amanhã, declara o Vinho, seja ele nacional ou importado um produto com tratamento de remédio de extrema urgência e de defesa nacional da saúde pública, por sua função. A combinação concomitante da presença de álcool, um ambiente hipotônico e a presença de polifenóis, impede a sobrevivência e a propagação da Covid-19 no vinho.[…]

Parece inacreditável, mas precisou uma epidemia de um vírus para que o Vinho pudesse finalmente ser olhado com carinho pelo governo. A iniciativa partiu do Ministro da Saúde, Luiz Mandetta, do Ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni, e teve a aprovação imediata do Ministro da Economia Paulo Guedes, que se reuniram ontem à noite com o Presidente Jair Bolsonaro que determinou a redação da MP. O que sabe é que a Medida Provisória de nº 937, de 31.3.2020 determinará que o Vinho fique isento de todos os impostos para que seu preço fique acessível a mais brasileiros. […]”.

O texto declara também que representantes de entidades ligadas à produção de vinho foram chamadas às pressas para reunião em Brasília. A importância do assunto justificaria a pressa. Todavia, como já revelado, a notícia é fake. Uma busca rápida sobre a Medida Provisória 937 mostra que ela nada tem a ver com vinhos. A propósito, a notícia é de 1° de abril.

#FatoOuFake: Higienizar compras sem máscara ao chegar da rua está contaminando as pessoas com coronavírus #MENTIRA

Mensagem WhatsApp

Mensagem diz que contaminação é pela falta de máscara. (Foto: Reprodução/WhatsApp)


Essa saiu do forno! Na última semana, passou a circular no WhatsApp a notícia de que a limpeza de compras de supermercado está espalhando a infecção por coronavírus. Segundo a explicação, isso acontece porque as pessoas tiram a máscara antes de fazer a higienização dos produtos. Como consequência, elas acabariam se contaminando.

Escandaloso na notícia é o fato de ser possível uma pessoa contrair a doença dentro de casa. Conforme indica a mensagem, uma equipe de médicos chama a atenção para a nova circunstância de contaminação, pois teria contabilizado várias ocorrências de infecção por essa via. A ideia então seria trazer a público a situação e estimular uma nova conduta.

Desde que o surto da Covid-19 foi anunciado, a comunidade científica tem orientado as pessoas sobre como prevenir a doença. Uma medida insistentemente enfatizada é a de tirar as roupas imediatamente ao chegar a casa. Alguns médicos sugerem, inclusive, que elas sejam separadas das demais durante a lavagem.

A recomendação vale também para acessórios, calçados e máscaras de proteção, pois, analogamente, eles podem ter sido infectados na rua. Nesse processo, sempre que algum objeto potencialmente infectado for tocado, a pessoa deve lavar as mãos com água e sabão ou fazer assepsia com álcool em gel.

Compras de supermercado e de feira também devem passar por higienização antes de armazenados. Isso porque os produtos podem ter sido contaminados pelo vírus quando manuseados nas lojas. Infectologistas informam, entretanto, que não há evidências de que a dispensa da máscara no procedimento culmine em espalhamento da doença. Pelo contrário, continuar usando o acessório que veio da rua aumenta as chances de levar o vírus para casa.

Limpeza de compras

Lavar as compras ajuda a evitar contaminação por coronavírus. (Foto: Reprodução/Google)


Concluindo

Médicos explicam que a contaminação se dá por duas vias. A primeira é pelo contato direto com gotículas de saliva do indivíduo infectado. Também se contrai o vírus levando as mãos à boca, ao nariz ou aos olhos após tocar superfícies contaminadas.

Significa dizer que mesmo que as embalagens estejam contaminadas, se não houver contato do produto ou das mãos infectados com as mucosas, não haverá transmissão do vírus, estando a pessoa com a máscara ou não. Como embalagens não emitem gotículas, é impossível se contaminar apenas tocando-as. Em suma, a regra é não tocar o rosto para que o vírus não alcance as vias respiratórias.

Voltando à notícia, o texto insinua que as pessoas contaminadas estiveram na rua. Daí, é fácil supor que o contágio pode ter ocorrido por qualquer via, não necessariamente limpando alimentos. Uma simulação da Universidade de Aalto, Finlândia, mostra que a nuvem de aerossol produzida por pessoa infectada pode alcançar dois corredores do supermercado e continuar ativa por alguns minutos. Isso reforça a possibilidade de infecção por outro meio. A simulação é apresentada no vídeo.

 (Vídeo: Reprodução/ YouTube)


Para finalizar, não existem relatos de infecção sob a circunstância descrita na mensagem; tudo não passa de especulação. Posto isso, a recomendação continua sendo tirar roupas e acessórios ao chegar a casa. Outro conselho valioso é que, na medida do possível, as pessoas respeitem a quarentena e não saiam para a rua.

#FatoOuFake: Carrefour  doa cupons em compras durante a quarentena #MENTIRA

“Atenção, pessoal! Como forma de ajudar a população nesse momento de crise, o Carrefour, em parceria com diversas marcas, está distribuindo 5 MIL cupons de 300 REAIS para serem utilizados em compras. Para participar, entre já no site e garanta o seu! Campanha #JuntosContraOCovid. **O cupom não é válido para compra de bebidas alcoólicas.”

Mais uma tentativa sórdida de ludibriar as pessoas durante a pandemia, um golpe envolvendo rede de supermercados Carrefour brinca com a esperança daqueles que passam necessidades. Segundo a mensagem, o grupo está oferecendo ajuda na quarentena, doando cupons de compra no valor de R$ 300. Ao todo, 5 mil cupons contemplariam famílias em dificuldades. Para ser beneficiada, a pessoa deveria entrar no site da rede e realizar um cadastro.

Ação fraudulenta

O golpe é clássico: primeiro dá acesso a um link que encaminha o indivíduo para uma página falsa. Em seguida, solicita uma série de informações pessoais do usuário que, muitas vezes, acaba cedendo. Ao final, pede o compartilhamento da notícia para a conclusão do cadastro. A mensagem em questão exige o compartilhamento com dez amigos ou grupos do WhatsApp. A intenção, não resta dúvidas, é para que mais presas caiam na armadilha.

Fake news

Rede Carrefour não está dando cupom de compras. (Foto: Reprodução/Google)


Peritos em informática explicam que é importante atentar para o endereço dos links acessados. No caso do cupom Carrefour, o link fraudulento direciona para a página carrefour-br.com. Especialistas informam, ainda, que o objetivo desse tipo de golpe é roubar os dados do internauta para praticar delitos. Até a data desta publicação, o portal carrefour-br.com continuava no ar.

Situação semelhante aconteceu recentemente, quando golpistas disseminaram links falsos para roubar dados de solicitantes do auxílio emergencial. Em posse dos dados, os fraudadores podem realizar compras online, instalar programas maliciosos nos aparelhos do usuário, abrir empresas fantasmas, dentre outros crimes. Assim, a recomendação é não acessar links suspeitos com mensagens alarmistas, atributos típicos de fake news.

Por: Gláucia Fernandes

Imagem em destaque: Coronavírus. (Reprodução/Unsplash)

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