Coronavírus: cura em questão

Poucos assuntos relacionados ao novo coronavírus causam tantos burburinhos como promessas de cura e teorias conspiratórias. Em tempos de coronavírus e fake news, a luta contra o inimigo invisível parece encorajar novos embates, a maioria deles completamente inoportunos e desnecessários.



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#FatoOuFake: Itália descobre que Covid-19 é trombose causada por bactéria e que China conhecia a cura há meses #MENTIRA

Mensagem WhatsApp.

A Itália não descobriu a cura para a Covid-19. (Foto: Reprodução/WhatsApp)


Sobre essa não restam dúvidas, é fake! Uma nova mentira em tom conspiratório anda assediando internautas e causando estranheza com um conteúdo pra lá de bizarro. A notícia afirma que finalmente foi desvendada uma saída para combater o novo coronavírus. A Itália teria alcançado o prodígio. Afirma também que a China realizou o feito anteriormente e que, portanto, sabia da cura para a Covid-19 há meses. A solução, entretanto, não teria sido divulgada por motivos econômicos.

Infelizmente, os cientistas italianos não encontraram a cura para a Covid-19. Trata-se de mais uma fake news. Mas o que intriga não é o fato de novamente uma mensagem noticiar a cura para a nova enfermidade. Sobre isso as mundo já está calejado! A barbaridade se encontra na afirmação de que a Covid-19 não passa de uma doença conhecida e de fácil diagnose, a trombose. Os chineses já sabiam disso há tempos, mas como a moléstia já tem método terapêutico conhecido, não teria sido interessante economicamente revelar a verdade. Em suma, a preocupação em tirar proveito da venda de respiradores e equipamentos de proteção pela China impediram que a saída para a Covid-19 viesse a público.

Assim sendo, segundo a narrativa, milhares de mortes teriam sido evitadas se o país asiático tivesse comunicado a descoberta. O texto argumenta ainda que o esforço realizado para conter a Covid-19 até o momento é inútil e que os resultados desanimadores estão relacionados à abordagem equivocada do problema. Como aponta a mensagem, tal abordagem ignora uma questão fundamental: a patologia não é causada por um vírus, mas por uma bactéria. Isso mesmo, uma bactéria.


Dispersão do coronvírus

É fake que chineses conheciam, mas não divulgaram a cura. (Reprodução/Pixabay)


História engenhosa

A história engenhosa afirma que o agente causador da Covid-19 não é o vírus SARS-CoV-2, como tem noticiado a imprensa e os organismos internacionais desde o início do surto. Uma bactéria responderia pelo infortúnio dos últimos meses. O micro-organismo causaria coagulação sanguínea e posterior insuficiência respiratória, levando muitos infectados a óbito. A terapia adequada contra o mal, todavia, seria simples e corriqueira: antibióticos associados a anti-inflamatórios e a anticoagulantes ou a aspirina. Sob essa perspectiva, as unidades de terapia intensiva seriam desnecessárias e o tratamento poderia ser realizado em casa.

Em tom alarmista e carregado de erros de pontuação, o texto cita como fonte o Ministério da Saúde da Itália. Diz que a descoberta só foi possível porque o país desobedeceu à proibição da Organização Mundial da Saúde (OMS) de fazer autópsia em pessoas mortas por Covid-19. Todas essas afirmações são infundadas.

Para iniciar, o Ministério da Saúde do país europeu jamais fez declaração  que pusesse em dúvida a origem da Covid-19. Pelo contrário, o portal da instituição endossa o discurso corrente de a doença é causada por uma cepa de coronavírus nunca “identificada anteriormente em seres humanos”.  Em fevereiro, o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV, na sigla em inglês) deu ao novo coronavírus a denominação oficial de “Coronavírus 2 da síndrome respiratória grave aguda (SARS-CoV-2)”.

Outra inverdade noticiada diz respeito à proibição de autópsias. Em nenhum momento a OMS proibiu a realização do procedimento. A instituição apenas emite recomendações gerais sobre medidas de segurança relacionadas à doença. Evitar autópsias para preservar profissionais e outras orientações sobre o manejo de corpos em casos de coronavírus são algumas delas.

Vírus ou bactéria?

A diferença entre vírus e bactérias é assunto pacífico na medicina. Vírus não possui células e devido a isso não são considerados vivos por boa parte da comunidade médica. São cápsulas de proteína que guardam material genético (RNA ou DNA) e têm capacidade de auto replicação quando dentro de um organismo. Como não têm metabolismo próprio, esses seres microscópicos são altamente dependentes da maquinaria enzimática das células vivas para continuarem existindo.


Coronavírus

Sars-CoV-2 é da família dos coronavírus. (Foto: Reprodução/Pixabay)


Já as bactérias são organismos unicelulares muito simples, mas que dispõem de tudo o que precisam para sobreviver. Em outras palavras, possuem metabolismo próprio, que a abastece com energia. Bactérias não necessariamente precisam de outro organismo para existir, portanto, podem viver fora de um ser vivo.

Em suma, a existência de uma literatura extensa e consolidada sobre o assunto mostra ser muitíssimo improvável o cometimento de um erro tão grosseiro por parte da comunidade científica mundial. Todas as evidências indicam que o agente causador da Covid-19 é sim um vírus.

Mais fake news: autópsias realizadas em Bérgamo, na Itália, mostram que “o problema principal não era o coronavírus”

Outra notícia mentirosa segue os mesmos parâmetros da anterior e acusa fabricantes de respiradores de genocídio global. Segundo a mensagem, autópsias em Bérgamo mostram que a causa dos óbitos por coronavírus é embolia venosa e não pulmonar. De acordo com o texto, o uso de antivirais, como hidroxicloroquina, assim que aparecem os sintomas impede o agravamento da enfermidade.

“…Enquanto isso o Genocídio continua! Autópsia de 50 pacientes na Itália comprova que de cada 10 mortes apenas 1 morreu por causas diretas do Covid-19 …os demais haviam morrido por complicações de embolia venosa pela inflamação causada da reação do organismo no processo de produção de anticorpos e não por embolia pulmonar como estão nos fazendo acreditar… enquanto comercializam Respiradores e cometem esse Genocídio Global. Logo, se a inflamação no sangue for tratada no início com antivirais, como a Hidroxicloroquina, Azitromicina, zinco e outros aliados… os pacientes não precisariam de respiradores e poderiam ser tratados em suas casas… como a Itália passa fazer agora! REFERÊNCIA…”

Como toda fake news que se preze, a publicação mescla informações verdadeiras com invenções ardis e conspiratórias. É certo que quadros graves de Covid-19 podem exigir a administração de antibióticos para o tratamento de complicações subsequentes. Também já foi relatada a ocorrência de coágulos venosos em pacientes internados em decorrência da nova doença. Isso explica terapia com anticoagulantes, mas não torna correta a informação que transforma a Covid-19 em trombose venosa.

Além disso, a eficácia da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus ainda não é cientificamente comprovada. A propósito, estimular o uso do medicamento mostra quão irresponsável é o conteúdo do texto.


Fake news

É fake que autópsias mostram que causa das mortes não é Covid-19. (Foto: Reprodução/Pixabay)


Concluindo

Em resumo, ambas as notícias são fake. É mentira que a Itália descobriu a cura, como também é mentira que terapia com respiradores e UTIs é ineficaz. Além disso, até que se prove o contrário, a China não pode ser culpada pelas mortes por coronavírus pelo simples interesse em vender respiradores. Ao que parece, as notícias se ancoram na tradução de um texto italiano em que o autor levanta a hipótese de que pacientes com Covid-19 morrem em virtude de microtrombos venosos e não por agressão aos pulmões. Embora haja especulações sobre o efeito de anticoagulantes em pacientes com Covid-19, qualquer asserção a esse respeito no momento seria prematura.

Sobre o uso de aspirina, outra inverdade: nenhuma instituição de saúde idônea recomenda o uso do remédio em casos de Covid-19. Embora auxilie em circunstâncias de acidente vascular cerebral (AVC) e infarto, o medicamento não é indicado para tratar trombose. Portanto, seu uso seria inadequado na abordagem de eventual trombose desencadeada pelo novo coronavírus. Especialistas alertam, inclusive, para os riscos do consumo indiscriminado do remédio, que pode causar sangramentos graves.

Concluindo, as publicações representam um composto de notícias falsas com o propósito de minimizar os efeitos nocivos da Covid-19. Sem dúvidas elas atendem a algum interesse. Entende-se, entretanto, que se a doença é o gatilho para complicações ou para o advento de novas doenças no paciente, ela deve ser tratada com a devida seriedade.

Sobre o combo de fake news, compete a quem a recebe esse tipo de mensagem vasculhar a veracidade das informações. Esse é o princípio a ser seguido para não cairmos em emboscadas ou nos tornarmos, às vezes sem saber, difusores das maléficas fake news.

Por: Gláucia Fernandes

(Foto Destaque: Medicamento – Covid-19. Reprodução/Pixabay)

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