Fake news: deturpam, enganam, caluniam

O mundo tem notado que o surto do coronavírus em plena era da informação representa terreno fértil para o inacreditável germinar. Lamentavelmente, criações ardilosas, que enganam, mas que, principalmente, difamam, despertam interesse. O gosto pelo bizarro, favorecido pelo acesso fácil às ferramentas de difusão, explica por que fake news têm dominado o globo.



#FatoOuFake: Madagascar denuncia OMS de suborno para envenenar possível cura da COVID-19 #MENTIRA

Denúncia Madagascar

Fake news calunia OMS. (Foto: Reprodução/AFP)


“Presidente de Madagáscar denúncia que a OMS ofereceu um suborno de $ 20 milhões de dólares para envenenar a cura COVID-19 baseada na planta”.

Uma publicação circula nas redes sociais dizendo que Madagascar teria recebido oferta de suborno por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo seria destruir bebida que supostamente cura a Covid-19. De acordo com a notícia, a OMS teria oferecido 20 milhões de dólares ao presidente do país africano, Andry Rajoelina, para adicionar veneno ao falso remédio. Ainda conforme a mensagem, o preparado mistura ervas locais e teria efeito positivo contra a nova enfermidade, daí a intenção de adulterá-lo. A mensagem começou a circular na segunda quinzena de maio e no início de junho já acumulava diversas visualizações e compartilhamentos.

A publicação vem acompanhada da imagem de capa do jornal Tanzania Perspective, de 14 de maio, que insinua uma tentativa de suborno ao dirigente africano. A publicação informa que o presidente teria feito a acusação numa entrevista concedida dias antes ao canal televisivo France 24.

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Curiosamente, a fake news em questão trabalha em cima de outra notícia falsa, deturpando informações e disseminando desinformação indiscriminadamente. É verdade que Rajoelina foi entrevistado pelo France 24 no mês de maio. Não são verdadeiras, entretanto, as declarações que o acusam de ter realizado. Na entrevista, Rajoelina mostra-se entusiasmado com uma bebida orgânica que promete curar a Covid-19. Suas alegações indicam que ele realmente acredita que Madagascar descobriu a solução para doença. Todavia, em nenhum momento o presidente menciona aliciamento por parte da OMS. A informação, portanto, é falsa. O próprio dirigente negou o boato.


Fake news

Fake news de fake news: desinformação indiscriminada. (Foto: Reprodução/ Istock)


Gabinete da Presidência

Em resposta ao serviço de checagem da AFP, o gabinete da Presidência do país africano desmente a notícia. A entidade fez a seguinte declaração: “O presidente de Madagascar desmente formalmente todas essas alegações”. “Desde o lançamento do remédio Covid-Organics, foram muitas as declarações falsamente atribuídas ao presidente Andry Rajoelina”. De fato, Rajoelina tornou-se alvo de diversas notícias mentirosas ultimamente. Mensagem similar à que calunia a OMS delata tentativa da China e dos Estados Unidos de boicotar o chá africano. Nela, Rajoelina também teria recusado oferta de milhões de dólares para envenenar o líquido.

Bebida milagrosa

Covid-Organics (CVO) é como foi batizada a bebida mencionada por Andry Rajoelina na entrevista ao France 24. A mistura foi desenvolvida pelo Instituto Malgaxe de Pesquisa Aplicada (IMRA), em Madagascar, e é feita à base da planta artemísia (Artemisia annua). Desde que a suposta efetividade da Covid-Organics contra o novo coronavírus foi anunciada, a fórmula milagrosa tem sido distribuída na ilha para prevenir e tratar a nova enfermidade.

O produto pode ser encontrado na versão engarrafada ou como erva para fazer chá. A popularidade da Covid-Organics tem feito com que ela seja exportada para vários países africanos. Contudo, mesmo abertamente usada como remédio, até agora não há estudo clínico que comprove a eficácia da artemisinina, princípio ativo da artemísia, contra a infecção do novo coronavírus. Na verdade, mesmo as substâncias mais promissoras até o momento só oferecem inferências, especulações. A infusão da artemísia é uma delas.


Artemísia

Chá de artemísia não tem eficácia comprovada para Covid-19. (Foto: Reprodução/Pixabay)


Nunca é demais lembrar que autoridades médicas de todo o mundo mantêm o discurso de que ainda não foi identificada substância, remédio, vacina ou alimento verdadeiramente eficaz e seguro contra o novo vírus. Mas a busca persiste e diversas substâncias têm sido consideradas. Aparentemente mais uma dentre as inúmeras receitas com ervas que prometem curar a Covid-19, a artemisinina, também está no rol de investigação da OMS. A instituição diz reconhecer e apoiar a medicina tradicional, mas faz um alerta. Segundo ela, fármacos elaborados a partir de plantas, como a Covid-Organics, “são considerados possíveis tratamentos para o COVID-19, mas devem ser realizados ensaios para avaliar sua eficácia e determinar seus efeitos colaterais”.

A fama

Ao que parece, o sucesso do chá africano se deve ao potencial antimalárico da artemísia. Assim como a cloroquina, a substância é base para medicamento usado no tratamento da malária. Mas não há comprovação de que a concentração de artemisinina no chá da planta seja suficiente para conter a doença. Em outras palavras, embora o princípio ativo da erva em dose específica trate quadros de malária, não há provas de que o chá da artemísia tenha a mesma eficácia contra a infecção. Contra a Covid-19, muito menos!

A relação entre antimaláricos e a Covid-19 não é novidade. Há tempos a mesma correspondência tem sido estabelecida entre cloroquina e hidroxicloroquina e a supressão do novo coronavírus. Mas, como vem sendo explicado exaustivamente nas últimas semanas, ainda não há certeza de que qualquer mistura elaborada de forma caseira, ou mesmo produzida em laboratório, tenha ação contra o novo vírus. Apesar da ausência de comprovação científica, Rajoelina continua assegurando a eficácia da bebida que, por sua vez, segue sendo consumida deliberadamente.

#FatoOuFake: Coronavírus afastou Renata Vasconcellos do JN #MENTIRA

Na última semana, circulou nas redes sociais a mensagem de que a âncora do Jornal Nacional, Renata Vasconcellos, teria sido afastada do telejornal por ter contraído Covid-19. A jornalista se ausentou nas noites de segunda (1) e de terça-feira (2) de junho, causando estranheza e preocupação em fãs e telespectadores. Durante a sua ausência, Mariana Gross, que apresenta o RJ1, assumiu a bancada do JN ao lado de William Bonner.

O afastamento rendeu uma série especulações sobre o estado de saúde da apresentadora. Foram múltiplas as mensagens de que ela teria se infectado com o novo coronavírus. Identificou-se, inclusive, considerações sobre o método terapêutico que a jornalista deveria adotar devido à sua ligação com a Globo.

“Renata Vasconcelos testou positivo para o covid 19. Acho que ela não deve tomar cloroquina, pois o JN é contra!!!! Vamos acompanhar!!!!”.


Covid-19

É falsa a notícia de que Renata Vasconcellos contraiu a Covid-19. (Foto: Reprodução/Pixabay)


A assessoria de imprensa da emissora logo desmentiu o boato. Ela informou que Renata se afastou por “questão pessoal” e não por ter testado positivo para o novo coronavírus. No Instagram uma seguidora questionou diretamente a Renata sobre a sua ausência no JN. Em resposta, a jornalista confirmou estar bem, mas que por ter se sentido “um pouquinho indisposta” resolveu descansar. As suspeitas sobre Renata ter contraído a infecção acabaram na mesma semana. A jornalista retornou ao JN na quarta-feira (3).

Por: Gláucia Fernandes

(Foto Destaque: Covid-19. Reprodução/Pixabay)

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