A terapeuta familiar Evelyn Stam aponta quais são os efeitos que a quarentena tem sobre os pais e filhos e todas as transformações trazidas pelo isolamento social

Há aproximadamente três meses, o Brasil adotou a medida de isolamento social como consequência da pandemia da Covid-19, causada pelo novo coronavírus. Inegavelmente, o momento atual está sendo difícil por diferentes motivos para diversas famílias. Entretanto, esse é o instante de reduzir danos e pensar como pode-se aproveitar a quarentena e os momentos em casa com os filhos de maneira positiva.



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Conforme a terapeuta familiar, Evelyn Stam, “a quarentena chegou trazendo muitas mudanças. Nos tornamos funcionários móveis, experts em tecnologia e, de uma hora para a outra, tivemos que virar professores. Mas se somos os primeiros a ensinar algo aos nossos filhos, ainda quando são bebês, qual é o problema nisso? O problema não é um só, mas diferentes problemas em âmbitos diferentes“, explica.

Evelyn fala sobre o efeito da quarentena no relacionamento pais e filhos e ressalta alguns dos principais problemas causados pelas mudanças consequentes da pandemia da covid-19. Confira:

Acadêmico

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É importante que os pais auxiliem na educação dos filhos durante a pandemia da Covid-19. (Foto: Reprodução/Blog Alergo Imuno)


Para os pais, que já estão inseridos em suas ocupações e funções dentro do mercado de trabalho, voltar ao básico pode ser difícil. Todavia, para o bem dos filhos, é preciso ajudar e ensinar os filhos. “Professores estudaram para transmitir conteúdo para os nossos filhos. Ensinar é uma fórmula de aptidão somada à muito estudo. Professores escolheram (assim espero) passar conhecimento à outras pessoas. E estudam muito para isso. Saber muito sobre um assunto não te faz um bom professor, só um expert no assunto“, argumenta a terapeuta.

Evelyn ainda explica que, nesse curto período de tempo e sem uma preparação adequada, os pais saibam ensinar os filhos, que sejam seus professores, uma tarefa que não é nada fácil. “Saber as letras do alfabeto não nos qualifica para ensiná-las, a coisa é mais difícil do que parece. Acredite, professores sabem o que estão fazendo e porque estão fazendo. Agora, de uma hora pra outra foi exigido de nós pais que tenhamos não só aptidão para o ensino, mas que saibamos como fazê-lo“, afirma.

Pressão

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Estamos, sem exceção, sofrendo pressão por todos os lados. Mas apesar do desgosto, não desgoste. (Foto: Reprodução/Thinkstock)


“Sob pressão/Me pressionando/Pressionando você/Ninguém pede isso”, como diria a famosa canção do Queen, em parceria com David Bowie, Under Pressure. A pressão, nesse momento atípico, parece estar por todos os lados. “Estamos vivendo um ciclo de pressão sem precedentes: Nossos filhos sofrem pressão da escola, nós, da empresa, dos filhos, do supermercado. Os professores sofrem pressão da escola, tudo isso enquanto tememos por nossa saúde, familiares, empregos, situação financeira“, diz Evelyn.

Confusão

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É comum lidar com a sensação de instabilidade. Tantos os pais como os filhos precisam ter um porto seguro para si. (Foto: Reprodução/Estima)


Todos os dias é preciso lidar com enxurradas de informações por todos os lados. Por ser um momento atípico, as crianças, assim como os adultos, ainda estão em fase de adaptação e de tentar entender o que está acontecendo. Por vezes, é preciso lidar com a situação instável e isso é difícil para ambos os lados.

Não sabemos direito o que está acontecendo, não temos respostas para dar aos nossos filhos e eles também estão inseguros. Como podemos exigir o mesmo desempenho das nossas crianças diante dessas questões? Nossos filhos estão vivendo esta pandemia tanto quanto nós. Estão tendo que se adaptar também. O primeiro passo a ser dado é o da estabilidade. É preciso encontrar um porto seguro em meio ao caos. Como podemos colocar conteúdo em uma mente desorganizada?“, indaga a terapeuta.

Um passo de cada vez

Durante este momento, é mais do que primordial ter um espaço de conversas com os filhos. (Foto: Reprodução/Getty Images)


Esse é o momento de dar um passo de cada vez. Primeiro vamos garantir a segurança física de nossos filhos: Isso já está sendo feito através das aulas online. Depois é a hora de garantir a segurança mental. Esta é a hora de investir no relacionamento. Atividades em família, muita conversa, muito espaço para as crianças expressarem suas dúvidas, um ambiente seguro para colocar para fora os seus medos. Temos que providenciar tudo isso antes de começarmos a nos concentrar no conteúdo escolar“, explica Evelyn.

De acordo com isso, que tal criar alguns novos hábitos com a sua família? Momentos para uma roda de conversa, cujo todos possam expor seus sentimentos ou uma noite de jogos pode auxiliar na construção de um ambiente lúdico e seguro. Porém, esse não é o momento de inflexibilidade e impor condições.

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Quando a casa que é a mente dos nossos filhos estiver arrumada chega a hora de pensar nas tarefas. O foco é ajudar nossos filhos a aprender o conteúdo da escola, mas o preço do aprendizado nunca pode ser a nossa relação com eles. A cobrança, a exigência e a intolerância são os nossos maiores inimigos nesse momento“, comenta Stan. “Cobrar que nossos filhos realizem todas as atividades, sem espaço para conversa ou flexibilidade pode resultar em danos enormes para o aprendizado. Isso resultará em um problema com grandes consequências“, completa a terapeuta familiar.

Crianças intimidadas

Tudo o que não queremos é que as crianças voltem para suas vidas normais inseguras. (Foto: Reprodução/Famivita)


O último efeito trazido por Evelyn é, caso as crianças sejam cobradas e exigidas de maneira exagerada, podem retomar a vida normal inseguras, com receio de questionar e expressar opiniões. “Isso pode transformar a criança em um adulto inseguro, passivo e que não saiba impor os seus limites. A criança pode criar expectativas muito altas para si mesma podendo se tornar um adulto frustrado, que não sabe lidar com as próprias limitações ou com um adulto que nunca vai se achar bom o suficiente“, comenta Stan. Ou seja, tal situação pode abalar o emocional das crianças.

A escola e os professores terão problemas muito maiores se esses forem os alunos que voltarem para a sala de aula. O atraso no conteúdo programático pode ser compensado pelos professores. Contudo, eles não podem realizar um bom trabalho numa sala com crianças emocionalmente instáveis. Nossa prioridade é cuidar da saúde mental dos pequenos, promover um núcleo familiar harmônico e saudável. O atraso no conteúdo programático pode ser compensado. Porém, o atraso emocional ou possíveis traumas gerados em casa durante a quarentena podem ser mais difíceis de serem superados“, finaliza a terapeuta familiar.

[Para mais informações e conteúdos, siga Evelyn Stam em sua conta no Instagram]

Por: Raianne Romão

(Foto destaque: Efeitos da quarentena na relação familiar. Reprodução/Criando com Apego)

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