O comportamento da sociedade está sendo modificado pela realidade imposta pelo coronavírus e a tendência é que as transformações se mantenham no período pós-pandemia

A pandemia causada pelo coronavírus está longe do fim. A circulação do vírus se mantém vigente há três meses. Com isso, a rotina de todo o planeta foi alterada de maneira brusca e repentina. Dessa maneira, a população mundial teve que ressignificar muitas coisas, inclusive o uso da internet. Essencial para a manutenção das relações interpessoais durante esse período de isolamento e distanciamento social. Além disso, não só foi, como está sendo possível ver um ‘boom’ colaborativo, de solidariedade. Assim, estudiosos apontam que essas transformações ocasionadas pela pandemia irão permanecer após o seu término definitivo.



pandemia

O filósofo Fabiano de Abreu fala sobre as profundas transformações causadas pela Covid-19 (Foto: Reprodução / MF Press Global )


O filósofo e psicanalista Fabiano de Abreu têm conduzido uma série de estudos teóricos. Estes, falam sobre os impactos da Covid-19 na sociedade de agora e os possíveis desdobramentos no futuro. Para ele, o processo de adaptação a certas mudanças que durou milhares de anos foi acelerado. “Por exemplo, a internet, chegou e nos mudou de forma abrupta”. A vida virtual tentou esconder o quanto o ser humano é frágil e o quanto é importante o contato físico.

Leia mais: Na quarentena, terapeuta fala sobre relacionamento familiar

“Enquanto pensávamos que as nossas fragilidades e a nossa humanidade poderia ser manipulada através de uma tela de um gadget (dispositivo eletrônico portátil), ganhamos voz em forma escrita e falada”, disse o filósofo. E prosseguiu: “percebemos que a nossa voz tinha e ainda tem o poder de percorrer o mundo em frações de segundos tanto para o bem, quanto para o mal”.

O coronavírus mudou paradigmas relacionados as relações interpessoais e ao uso das redes sociais

Diante disso, por causa dos impactos causados pelo Sars-Cov-2, a utilização da internet foi ressignificada, sobretudo o uso das redes sociais. Logo, esses impactos fizeram com que os cidadãos se deparassem com o real e saíssem do “conto de fadas das redes sociais”. No qual é possível construir uma nova realidade, que não necessariamente reflete a vida real. No entanto, ” a pandemia nos forçou a solidão e modificou o nosso olhar para a importância do virtual e para o futuro das relações humanas”, afirmou o psicanalista.

De maneira impositiva e literal, tivemos que deixar um pouco as ‘selfies’ de lado, a exposição e ostentação das nossas vidas ‘perfeitas’, para enaltecer o ‘self’, ou seja, o Si mesmo”, continuou. Posteriormente, Fabiano afirmou que a pandemia colocou todos dentro de um mesmo patamar. Uma vez que, “o vírus não atinge apenas os pulmões dos pobres e não imuniza os ricos, para ele, ninguém é melhor que ninguém”.


pandemia

A pandemia rompeu com alguns paradigmas da vida virtual (Foto: Reprodução / MF Press Global )


As relações interpessoais foram totalmente modificadas diante desse momento. O isolamento social foi imposto como maneira de conter a propagação do coronavírus. Então, todos perderam o contato físico com familiares e amigos em alguma medida. Desse modo, segundo Abreu, a máxima: “só damos valor às coisas e as pessoas quando perdemos” passou a representar essa nova realidade.

Para mais, a crise sanitária mundial escancarou a finitude do ser humano, mostrando que existe uma interdependência entre eles. “Ao perdermos momentaneamente o contato físico, passamos a valorizá-lo como nunca antes”, apontou o estudioso. “Dessa perda surgiu a necessidade de amor ao próximo. Surgiu também a certeza de que dependemos uns dos outros para viver, e mais forte ainda, dependemos uns dos outros para que possamos sobreviver ao vírus”, explicou.

O mundo pós-coronavírus traz consigo um novo normal

De acordo com Fabiano de Abreu, as transformações causadas pelas Covid-19 “já se podem sentir e devem perdurar”. O tão falado ‘novo normal’ já está sendo vivido. Sendo assim, “o consumismo desenfreado deu lugar a um senso de necessidade, de reaproveitamento, de consciência. Ganhamos também tempo para valorizar o que não valorizamos como deveríamos”, comenta. Não apenas isso, “ganhamos tempo para repensar, projetar, reinventar e aproveitar a vida interior”, completa.

Além do mais, os indivíduos de maneira geral tornaram-se mais solidários e colaborativos. “Passamos a nos preocupar com o próximo, com o vizinho, com o sem teto”, deixou claro o jornalista. Não só isso, também há uma preocupação “com os profissionais da saúde, com os idosos, que antes, nos faltava tempo e compaixão”. Assim, para ele, boa parte destas mudanças “irão refletir nas próximas gerações”. Posto isto, “para nos sentirmos felizes nesse novo que já chegou, precisaremos uns dos outros, vamos precisar nos unir e cuidar uns dos outros.

Leia mais: Brasileiros passarão por teste de vacina contra a Covid-19

Ademais, o escritor fez um alerta para algumas sociedades. Aquelas sociedades que ainda não tomaram consciência da gravidade da pandemia e de sua força, e que não respeitaram o isolamento social, estenderão os seus dias de sofrimento”, afirma. ” Com isso vai demorar ainda mais até que possam experimentar esse novo estilo de vida”, finaliza.

Os dois lados da pandemia

Inegavelmente, a pandemia trouxe consigo inúmeras perdas. “Perdemos vidas, perdemos recursos financeiros, perdemos o contato com a família e com os amigos, perdemos a oportunidade de lazer, de diversão e confraternizar, perdemos a liberdade de ir e vir”, observa o filósofo. Entretanto, também puderam ser observados muitos ganhos. Desse modo, “ganhamos tempo com a família, ganhamos a oportunidade de dar atenção de qualidade aos nossos filhos ganhamos uma maior consciência planetária, ambiental, e principalmente, constatamos, finalmente, a importância do autoconhecimento e do desenvolvimento da inteligência emocional”.

Por: Lourice Rocha

(Foto Destaque: As transformações causadas pela Covid-19. Reprodução / MF Press Global)

Related Article

0 Comentários

Deixe um comentário