População Xavante sofre com a falta de recursos contra o coronavírus

População Xavante, no período de 24 horas, entre sexta-feira (26) e sábado (27), nove indígenas da etnia morreram com sintomas de covid-19; no Mato Grosso, incluindo um bebê. Contudo, três delas já foi confirmado para coronavírus, e outras seis ainda aguardam o resultado dos exames, segundo informam ao EL PAÍS lideranças locais.



A população Xavante têm a população de 22.000 pessoas, e já são 102 casos da doenças confirmados, além de 61 suspeitos, de acordo com o último boletim publicado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Xavante, ligado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), na quinta-feira (25/06).

Os números, no entanto, divergem das cifras oficiais da própria Sesai, que contabiliza cinco mortes e 84 infecções entre esses indígenas. Entretanto, o Ministério da Saúde informou que a divergência se deve ao tempo em que as notificações locais demoram para ser incluídas no sistema geral. O DSEI confirmou a ocorrência dessas nove mortes nas últimas 24 horas, por exemplo, mas o Ministério da Saúde ainda não.

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População

Moradores da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso (Foto: reprodução/ Cimi /Arquivo)


Com a chegada do coronavírus em pelo menos quatro dos nove territórios da etnia que se distribuem ao longo de 14 municípios do Mato Grosso. O primeiro óbito registrado neste povo foi de um bebê, em 11 de maio, na terra Marãiwatsede. Assim, também foram infectados 12 indígenas e dois morreram. Mas o território mais afetado é a terra Indígena de São Marcos, que concentra 64 dos 102 casos confirmados.

O vírus está se alastrando muito rápido. Esta semana, uma senhora teve que ser transferida para uma UTI em Cuiabá, onde faleceu”, conta ao EL PAÍS Clarêncio U’repaiwe Tsuwté, presidente do conselho distrital da comunidade.

Xavantes estão mais vulneráveis

Os Xavantes são mais vulneráveis ao novo coronavírus, pois, desde seu contato com os não indígenas, principalmente nos anos 1940, assim, desenvolveram problemas crónicos, como diabetes e hipertensão.

As famílias de lideranças estão muito assustadas, já que são os líderes que têm mais atividades fora das aldeias. Uma família enterrou quatro pessoas em quatro dias”, conta Ana Paula Sabino, que trabalha há 20 anos com os Xavante e atua no Instituto Socioambiental (ISA) na Frente Parlamentar pelos Direitos dos Povos Indígenas, junto a Joenia Wapichana.

Ana Paula relata sobre uma Xavante, gestante de 42 semanas cujo bebê não nascia e ela, por medo da contaminação, resistia a ir ao hospital. Quando finalmente foi levada, constaram que ela tinha covid-19 e que seu bebê havia morrido no útero.

Muitos não querem buscar ajuda médica, porque têm medo de sair da aldeia e não voltar mais. Preferem se tratar com os xamãs e os remédios caseiros”, diz Ana Paula, que critica a DSEI por não orientar a comunidade sobre a dimensão da pandemia: “Até duas semanas atrás, tratavam como se fosse uma gripezinha”, afirma.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que orienta os trabalhadores da atenção à saúde indígena a priorizarem o trabalho de busca ativa domiciliar de casos de síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave (SRAG); realizando a triagem dos casos para evitar a circulação de pessoas com sintomas respiratórios. A Sesai diz que enviou 1.920 testes de tipo sorológico para o DSEI Xavante.

S.O.S Xavante

Rafael Weree, Xavante e assessor parlamentar no Congresso para políticas indigenistas e um dos facilitadores da PL 1142. Rafael, cria o Plano Emergencial para enfrentar à covid-19 nos territórios Indígenas, confirma os relatos de Ana Paula:No início, os Xavante não acreditavam muito na gravidade da doença. Mas agora que estão perdendo pessoas próximas, todo mundo está assustado. Não existe ação por parte da DSEI, não nos dão orientação”, diz ele; ainda afirmando que, em muitas aldeias, faltam remédios até para tratar outras doenças.

Rafael Weree, viu de perto o efeito do coronavírus nas aldeias, já que, perdeu tios e tias para a covid-19, e também a avó de 103 anos: “É uma dor muito grande, porque ela era uma sábia; a matriarca da nossa terra indígena. No total, contamos 20 mortes em dez dias. Estamos enterrando duas pessoas por dia”.

Recentemente, foi lançada, com apoio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a campanha S.O.S. Xavante, com o objetivo de captar recursos para instalar uma Unidade Avançada de Saúde próximo às aldeias Xavante. Além disso, disponibilização de material sanitário e segurança alimentar, e assim, manter um isolamento ente as aldeias.

História se repete

Alguns povos indígenas da região norte do país, conseguem fugir para floresta, mas os Xavantes não têm essa opção, já que, o Estado é dominado por plantações de soja e pastos para pecuária.

“A única coisa que podemos fazer é parar de ir na cidade comprar mantimentos, adotar o isolamento total”, diz Rafael. Clarêncio U’repaiwe Tsuwté, no entanto, cobra uma solução do Governo brasileiro.

“A Constituição diz que se os povos originários são ameaçados por um desastre natural ou uma epidemia como essa, é obrigação do Estado nos realocar para outro território e garantir nossa segurança. No passado, eles já nos moveram por interesse próprio”, afirma.

A referência que Clarêncio é à ditadura militar. Pois, em 1966, usou aviões da Força Aérea Brasileira (FAB); para retirar os Xavante de Marãiwatsedé de suas terras originais, e fazendo a mudança para São Marcos. O objetivo era permitir as atividades da empresa agropecuária Suiá-Missú, que se manteve na região com o apoio do Governo militar.

Com isso foi provocada uma epidemia de sarampo entre os indígenas na época, que ocasionou 75 e 120 Xavantes. Ana Paula diz que vê a situação se repetindo. “Essa região é um vale dos esquecidos. O que está acontecendo agora é um genocídio da mesma forma que ocorreu na ditadura”, lamenta.

Por: Nicolly Verly

(Foto Destaque: População indígena não possuí recursos contra a Covid-19. Reprodução/Gcom- MT)

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